Tem uma frase bastante repetida em publicidade:
“O importante é que estão falando da marca.”
Nunca achei tão simples assim.
Nos últimos dias, uma campanha estrelada por Sydney Sweeney para uma empresa americana de apostas e previsões esportivas virou assunto muito além do mercado publicitário.
A proposta era deliberadamente provocativa e usava uma representação sexualizada da atriz associada ao universo esportivo. A reação veio rapidamente.
Atletas olímpicas e profissionais criticaram a campanha por considerarem que ela sexualizava a relação entre mulheres e esporte. Entre as vozes públicas estavam a campeã olímpica Ariarne Titmus e a velocista Amy Hunt. Algumas atletas começaram inclusive a publicar suas próprias imagens de treinamento e competição como contraponto à campanha (AP News).
A polêmica explodiu.
Mas é aqui que o caso começa a ficar interessante para marketing.
Porque provocar atenção não foi um acidente. Era parte do objetivo.
O CEO da empresa afirmou que queria reduzir a distância de conhecimento de marca em relação aos líderes da categoria e introduzir a empresa nacionalmente. Segundo ele, Sydney Sweeney foi escolhida justamente pela capacidade de colocar a marca dentro da conversa pública. Ela não atuou apenas como celebridade contratada: tornou-se acionista e participou do desenvolvimento criativo da campanha (Front Office Sports).
Nesse primeiro objetivo, é difícil dizer que a campanha passou despercebida.
Poucos dias depois do lançamento, o vídeo já havia ultrapassado 47 milhões de visualizações no Instagram e 12 milhões no X, segundo dados divulgados pela empresa ao Front Office Sports. No Instagram, o desempenho foi aproximadamente 400 vezes superior ao vídeo anterior publicado pela marca (Front Office Sports).
Então funcionou? Depende do que chamamos de funcionar.
E é justamente aí que mora a discussão.
Dados de monitoramento citados pela imprensa mostraram que as menções à empresa nas redes cresceram mais de nove vezes depois da campanha.
Mas apenas cerca de 4% das publicações analisadas estavam focadas efetivamente na marca.
A maior parte da conversa estava concentrada em Sydney Sweeney e na controvérsia.
Esse número muda bastante a leitura.
Porque existem pelo menos três coisas diferentes acontecendo:
- a pessoa viu a campanha;
- a pessoa falou sobre a campanha;
- a pessoa entendeu e passou a considerar a marca.
Só que elas não são a mesma coisa. E marketing às vezes trata como se fossem.
É perfeitamente possível construir uma peça que domina a conversa durante uma semana e descobrir depois que o principal ativo construído foi a notoriedade da celebridade.
Esse é o risco da atenção emprestada.
Quando uma marca utiliza alguém culturalmente muito maior do que ela, a celebridade pode funcionar como uma enorme máquina de distribuição.
Mas existe uma pergunta estratégica: quanto dessa atenção consegue ser apropriada pela marca?
É exatamente por isso que eu evitaria concluir que a campanha foi um fracasso. Seria cedo demais.
O objetivo declarado era awareness. E certamente aumentou.
Para uma marca relativamente desconhecida tentando entrar rapidamente no debate de uma categoria competitiva, provocar uma explosão de conhecimento pode ter sido uma escolha consciente.
Especialistas ouvidos sobre o caso destacaram justamente essa diferença:
uma marca estabelecida possui reputação para proteger
uma marca desconhecida pode aceitar um risco muito maior para conquistar atenção rapidamente.
Mas awareness cria o próximo problema.
Agora que as pessoas sabem que você existe, pelo que exatamente querem que elas se lembrem de você?
Esse é o ponto do case que mais me interessa.
Porque a campanha ganhou distribuição extraordinária. Mas parte significativa da conversa passou a ser:
- Sydney Sweeney;
- Sexualização;
- Representação feminina no esporte;
- Polêmica.
E reação das atletas.
Não necessariamente a proposta de valor da empresa. Isso não significa que a estratégia esteja errada. Significa que existe uma segunda etapa muito mais difícil.
Transformar:
atenção → compreensão → associação → consideração → preferência.
A primeira etapa pode acontecer em 58 segundos. As outras levam tempo.
Existe um contraste que se encaixa bem aqui: presença × preferência.
Ser visto não significa ser escolhido. E acho que esse é um problema especialmente atual.
Vivemos um mercado em que marcas estão cada vez mais pressionadas a interromper o feed:
- Creators;
- Celebridades;
- Memes;
- Polêmicas;
- IA;
- Trend;
- Provocação.
Quanto maior a disputa pela atenção, maior a tentação de transformar atenção no objetivo, quando ela deveria ser apenas o começo.
Uma campanha pode gerar 50 milhões de visualizações e ainda deixar uma pergunta sem resposta: o que a empresa construiu com elas?
Neste caso, ainda é cedo para saber.
Precisaremos observar se o aumento de conhecimento se transforma em lembrança de marca, consideração, aquisição, retenção e se a controvérsia cria algum efeito duradouro sobre a percepção da empresa. Os dados disponíveis até agora mostram principalmente alcance e conversa, não resultado comercial de longo prazo.
É por isso que eu não encerraria esse case dizendo que “toda publicidade é boa publicidade”.
Nem dizendo que a campanha foi um erro.
As duas conclusões são fáceis demais.
A pergunta de gestão é melhor:
quanto da atenção que sua campanha conquistou pertence realmente à sua marca depois que o assunto passa?
Porque viralizar é conseguir atenção. Construir marca é fazer alguma coisa permanecer depois dela.
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